27 março 2026

Movimentos de um pensamento crítico: o que a Polilaminina não restaura!

Esta reflexão surgiu num momento aparentemente comum: ao assistir a mais um vídeo de um médico a comentar o caso da polilaminina e toda a controvérsia em torno da investigação que a trouxe à atenção pública. E o meu cérebro em seu rotineiro caos matinal, não resistiu à provocação de mais um assunto onde andam pelas beiras e nunca chegam ao profundo.

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Entre explicações técnicas, críticas à metodologia e questionamentos sobre o rigor científico do estudo, meu coração acelera na ânsia de gritar sobre um contraste difícil de ignorar: 

- De um lado, a comunidade científica a levantar dúvidas legítimas — baseadas em critérios, validação e prudência. Do outro, uma narrativa amplamente difundida que apresenta a investigadora como uma figura quase salvadora, vítima de um suposto sistema que rejeita aquilo que não serve aos seus obscuros interesses.

- No meio disto tudo, está a população. Uma população que, muitas vezes, não tem acesso — ou não consegue interpretar — os aspetos mais técnicos destas discussões. E quando essa informação chega, nem sempre é recebida de forma crítica. A forma como os media amplificam certas narrativas contribui para esta distorção, simplificando o que é complexo e emocionalizando o que deveria ser analisado com rigor.

Foi nesse ponto de tensão — entre ciência, perceção pública e necessidade de acreditar — que deixei registada a minha singela resposta, escrita de modo informal e popular, e esta reflexão começou a ganhar forma. Deixo-a aqui, agora polida e vestida de festa. Discorram sobre nos comentários. 

Boas leituras!

O mais desanimador é perceber que as respostas da ciência têm de lidar com as expectativas de uma população frequentemente frustrada e com baixos níveis de literacia em saúde e ciências biomédicas. Este cenário cria o terreno perfeito para a disseminação de desinformação, sobretudo de promessas fáceis e milagrosas.

Vivemos tempos desafiantes. Já não basta desmascarar falsos profissionais e práticas incompetentes — é também necessário adaptar a linguagem, ultrapassar barreiras burocráticas e encontrar formas eficazes de chegar à população em geral. Paradoxalmente, é precisamente esse público, leigo, mas com enorme poder de disseminação, que mais facilmente propaga aquilo que não compreende totalmente.

Num contexto de baixa literacia, o que é simples, imediato e emocionalmente apelativo tende a ser mais convincente do que aquilo que é rigoroso, mas complexo e demorado. A ciência exige tempo, método e compreensão — e, por isso mesmo, é muitas vezes desacreditada. É mais fácil rejeitar o que não se entende do que investir no esforço de compreender e na difícil arte de ter paciência. É também mais confortável construir narrativas conspiratórias sobre o que parece distante ou “misterioso”.

Como explica Daniel Kahneman no livro Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar (agradeço à minha professora Emília, que foi quem deu-me a felicidade de conhecer este livro), o nosso cérebro tem uma tendência natural para preferir explicações rápidas, intuitivas e emocionalmente carregadas — mesmo quando não são verdadeiras, as famosas teorias da conspiração.

E depois surge o maior desafio: como traduzir tudo isto de forma acessível, sem perder o rigor? Como comunicar com clareza para quem não partilha a mesma base de conhecimento? Como dominar um assunto a ponto de transmití-lo de forma tão lúdica que encante e convença as pessoas com a mesma facilidade que o incorreto tem para permear as mentes sedentas de respostas?

Enquanto isso, os “lobos” avançam. Falam de forma simples, próxima, quase reconfortante. Prometem curas imediatas, prometem livrar-nos das garras da indústria impiedosa. Tocam no emocional de uma população cansada e, muitas vezes, desesperançosa — e nisso reside a sua força.

Cabe-nos, agora, encontrar caminhos para contrariar este fenómeno. Não apenas com conhecimento, mas com comunicação. Não apenas com verdade, mas com empatia. Pois um corpo que perdeu os seus movimentos ainda tem um cérebro pensante. Mas um corpo são que perde a capacidade de pensar criticamente, não pode mudar mais nada.




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