27 março 2026

Quando o mau é o normal

 

No fim, é isso que eu vejo: uma sociedade — um mundo — estranhamente bem ajustado ao caos.

Parece que as pessoas só enxergam isso. Só vivem isso. E, mais do que isso, passaram a acreditar que apenas isso é válido. Como se a vida tivesse obrigatoriamente de ser dura. Como se, sem dificuldade, não houvesse mérito. Como se tudo tivesse de vir através do sacrifício para ter valor.

Mas… será mesmo esse o ideal?

Vivemos como se estivéssemos constantemente a lutar para sobreviver. E justificamos isso com o caos — com a dificuldade das circunstâncias, com a exigência do mundo. Mas talvez exista outra camada aqui. Talvez, estejamos a tornar tudo mais difícil para alimentar o nosso próprio ego — esse que precisa da dificuldade para se sentir merecedor, vitorioso, superior.



E, nesse processo, julgamos os outros. Dizemos que “não fazem nada”. Mas quem somos nós para medir o esforço de alguém? Ninguém vive a vida do outro. Ninguém calça os seus sapatos para saber onde apertam.

Ainda assim, continuamos todos a correr. A acumular. A produzir. A adiar o descanso para um futuro desconhecido.

Mas será que esse dia vai chegar?

Ou vamos passar a vida inteira a construir algo que nunca teremos tempo de usufruir?

É assim que vejo o mundo lá fora: um caos inquestionável e silenciosamente aceite. E o mais inquietante não é o caos em si — é a forma como as pessoas se adaptaram a ele, como se fosse inevitável, como se não houvesse alternativa, como se fosse NATURAL!

E aqueles que ousam questionar esse modelo… são frequentemente desvalorizados. Rotulados como preguiçosos, improdutivos, irrelevantes. Mas talvez sejam exatamente esses que estão a tentar alertar para o rumo em que estamos a caminhar...

Porque as pessoas estão a adoecer — e muitas nem percebem. E, sem perceber, acabam por arrastar outras para o mesmo estado caótico e insalubre...triste e cinzento. O caos espalha-se. Cresce. Torna-se coletivo.

E, no meio disto tudo, continuamos a correr — atrás de coisas, de conquistas, de uma ideia de felicidade que parece sempre estar mais à frente ou que simplesmente não existe! Pelo menos não da forma que pensamos ser.



Mas, talvez seja mais simples do que isso.

Talvez baste abrir a janela.

Olhar para o céu.

E perguntar: como é que eu via este céu quando era criança?

Mudar a lente. Só isso.

Porque o mundo, no fundo, não mudou assim tanto. Nós é que mudámos. Perdemos a forma simples de ver, de sentir, de estar. Trocamos o devaneio por armaduras!

E o mais curioso é que essa capacidade ainda existe em nós. Mas não a usamos. Porque, de alguma forma, ficámos demasiado bem adaptados à loucura.

À loucura que nos dizem ser o normal.

Mas será que uma vida que adoece as pessoas — sobretudo mentalmente — pode realmente ser considerada normal? Pode ser ao menos, considerada "vida"? Chamaria a isto "sobreviver" e não "viver"!

Vivemos com medo de parar. Como se parar fosse perder tempo. Como se observar fosse sinónimo de inutilidade. Como se só tivesse valor quem está constantemente a fazer.

Mas… e se todos estão a fazer o mesmo, e o resultado é doença, exaustão e vazio, qual é o sentido em continuar a correr para isto?

Talvez o problema não esteja em parar, e sim esteja neste caminho que escolhemos não questionar.

E se — sem utopias — começássemos a simplificar?

Se escolhéssemos ouvir as pessoas, observar mais antes de agir?

Normalizar a contemplação e as pausas...o silêncio e o descanso?

Se, pouco a pouco, voltássemos ao essencial?

E se isso deixasse de ser exceção… e passasse a ser norma? Qual caminho escolheriam percorrer?


Como já cantava Balu: "Necessário, somente o necessário! O extraordinário é demais! 





Movimentos de um pensamento crítico: o que a Polilaminina não restaura!

Esta reflexão surgiu num momento aparentemente comum: ao assistir a mais um vídeo de um médico a comentar o caso da polilaminina e toda a controvérsia em torno da investigação que a trouxe à atenção pública. E o meu cérebro em seu rotineiro caos matinal, não resistiu à provocação de mais um assunto onde andam pelas beiras e nunca chegam ao profundo.

                                                                                😒

Entre explicações técnicas, críticas à metodologia e questionamentos sobre o rigor científico do estudo, meu coração acelera na ânsia de gritar sobre um contraste difícil de ignorar: 

- De um lado, a comunidade científica a levantar dúvidas legítimas — baseadas em critérios, validação e prudência. Do outro, uma narrativa amplamente difundida que apresenta a investigadora como uma figura quase salvadora, vítima de um suposto sistema que rejeita aquilo que não serve aos seus obscuros interesses.

- No meio disto tudo, está a população. Uma população que, muitas vezes, não tem acesso — ou não consegue interpretar — os aspetos mais técnicos destas discussões. E quando essa informação chega, nem sempre é recebida de forma crítica. A forma como os media amplificam certas narrativas contribui para esta distorção, simplificando o que é complexo e emocionalizando o que deveria ser analisado com rigor.

Foi nesse ponto de tensão — entre ciência, perceção pública e necessidade de acreditar — que deixei registada a minha singela resposta, escrita de modo informal e popular, e esta reflexão começou a ganhar forma. Deixo-a aqui, agora polida e vestida de festa. Discorram sobre nos comentários. 

Boas leituras!

O mais desanimador é perceber que as respostas da ciência têm de lidar com as expectativas de uma população frequentemente frustrada e com baixos níveis de literacia em saúde e ciências biomédicas. Este cenário cria o terreno perfeito para a disseminação de desinformação, sobretudo de promessas fáceis e milagrosas.

Vivemos tempos desafiantes. Já não basta desmascarar falsos profissionais e práticas incompetentes — é também necessário adaptar a linguagem, ultrapassar barreiras burocráticas e encontrar formas eficazes de chegar à população em geral. Paradoxalmente, é precisamente esse público, leigo, mas com enorme poder de disseminação, que mais facilmente propaga aquilo que não compreende totalmente.

Num contexto de baixa literacia, o que é simples, imediato e emocionalmente apelativo tende a ser mais convincente do que aquilo que é rigoroso, mas complexo e demorado. A ciência exige tempo, método e compreensão — e, por isso mesmo, é muitas vezes desacreditada. É mais fácil rejeitar o que não se entende do que investir no esforço de compreender e na difícil arte de ter paciência. É também mais confortável construir narrativas conspiratórias sobre o que parece distante ou “misterioso”.

Como explica Daniel Kahneman no livro Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar (agradeço à minha professora Emília, que foi quem deu-me a felicidade de conhecer este livro), o nosso cérebro tem uma tendência natural para preferir explicações rápidas, intuitivas e emocionalmente carregadas — mesmo quando não são verdadeiras, as famosas teorias da conspiração.

E depois surge o maior desafio: como traduzir tudo isto de forma acessível, sem perder o rigor? Como comunicar com clareza para quem não partilha a mesma base de conhecimento? Como dominar um assunto a ponto de transmití-lo de forma tão lúdica que encante e convença as pessoas com a mesma facilidade que o incorreto tem para permear as mentes sedentas de respostas?

Enquanto isso, os “lobos” avançam. Falam de forma simples, próxima, quase reconfortante. Prometem curas imediatas, prometem livrar-nos das garras da indústria impiedosa. Tocam no emocional de uma população cansada e, muitas vezes, desesperançosa — e nisso reside a sua força.

Cabe-nos, agora, encontrar caminhos para contrariar este fenómeno. Não apenas com conhecimento, mas com comunicação. Não apenas com verdade, mas com empatia. Pois um corpo que perdeu os seus movimentos ainda tem um cérebro pensante. Mas um corpo são que perde a capacidade de pensar criticamente, não pode mudar mais nada.