No fim, é isso que eu vejo: uma sociedade — um mundo — estranhamente bem ajustado ao caos.
Parece que as pessoas só enxergam isso. Só vivem isso. E, mais do que isso, passaram a acreditar que apenas isso é válido. Como se a vida tivesse obrigatoriamente de ser dura. Como se, sem dificuldade, não houvesse mérito. Como se tudo tivesse de vir através do sacrifício para ter valor.
Mas… será mesmo esse o ideal?
Vivemos como se estivéssemos constantemente a lutar para sobreviver. E justificamos isso com o caos — com a dificuldade das circunstâncias, com a exigência do mundo. Mas talvez exista outra camada aqui. Talvez, estejamos a tornar tudo mais difícil para alimentar o nosso próprio ego — esse que precisa da dificuldade para se sentir merecedor, vitorioso, superior.
E, nesse processo, julgamos os outros. Dizemos que “não fazem nada”. Mas quem somos nós para medir o esforço de alguém? Ninguém vive a vida do outro. Ninguém calça os seus sapatos para saber onde apertam.
Ainda assim, continuamos todos a correr. A acumular. A produzir. A adiar o descanso para um futuro desconhecido.
Mas será que esse dia vai chegar?
Ou vamos passar a vida inteira a construir algo que nunca teremos tempo de usufruir?
É assim que vejo o mundo lá fora: um caos inquestionável e silenciosamente aceite. E o mais inquietante não é o caos em si — é a forma como as pessoas se adaptaram a ele, como se fosse inevitável, como se não houvesse alternativa, como se fosse NATURAL!
E aqueles que ousam questionar esse modelo… são frequentemente desvalorizados. Rotulados como preguiçosos, improdutivos, irrelevantes. Mas talvez sejam exatamente esses que estão a tentar alertar para o rumo em que estamos a caminhar...
Porque as pessoas estão a adoecer — e muitas nem percebem. E, sem perceber, acabam por arrastar outras para o mesmo estado caótico e insalubre...triste e cinzento. O caos espalha-se. Cresce. Torna-se coletivo.
E, no meio disto tudo, continuamos a correr — atrás de coisas, de conquistas, de uma ideia de felicidade que parece sempre estar mais à frente ou que simplesmente não existe! Pelo menos não da forma que pensamos ser.
Mas, talvez seja mais simples do que isso.
Talvez baste abrir a janela.
Olhar para o céu.
E perguntar: como é que eu via este céu quando era criança?
Mudar a lente. Só isso.
Porque o mundo, no fundo, não mudou assim tanto. Nós é que mudámos. Perdemos a forma simples de ver, de sentir, de estar. Trocamos o devaneio por armaduras!
E o mais curioso é que essa capacidade ainda existe em nós. Mas não a usamos. Porque, de alguma forma, ficámos demasiado bem adaptados à loucura.
À loucura que nos dizem ser o normal.
Mas será que uma vida que adoece as pessoas — sobretudo mentalmente — pode realmente ser considerada normal? Pode ser ao menos, considerada "vida"? Chamaria a isto "sobreviver" e não "viver"!
Vivemos com medo de parar. Como se parar fosse perder tempo. Como se observar fosse sinónimo de inutilidade. Como se só tivesse valor quem está constantemente a fazer.
Mas… e se todos estão a fazer o mesmo, e o resultado é doença, exaustão e vazio, qual é o sentido em continuar a correr para isto?
Talvez o problema não esteja em parar, e sim esteja neste caminho que escolhemos não questionar.
E se — sem utopias — começássemos a simplificar?
Se escolhéssemos ouvir as pessoas, observar mais antes de agir?
Normalizar a contemplação e as pausas...o silêncio e o descanso?
Se, pouco a pouco, voltássemos ao essencial?
E se isso deixasse de ser exceção… e passasse a ser norma? Qual caminho escolheriam percorrer?
Como já cantava Balu: "Necessário, somente o necessário! O extraordinário é demais!




